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Dezessete

Dezessete is a zine about 2017 (DEZESSETE in english is SEVENTEEN), organized by Stefano Maccarini.

I wrote a text about my father's death, illustrated by Manu Serra.

The full text, in portuguese, can be read below or through this link (click here to support the original publisher).

Photo of Dezessete zine

Atrás do volante

Dois mil e dezessete esfumaçado e estourado em mil pedaços de metal retorcido. Dois corpos na beira da estrada e ninguém sabe o que aconteceu direito. Nem pra ser ataque fulminante de coração, não. Foi acidente de carro (de moto), pancada veloz e voo. O enterro teve dois caixões fechados.

Dois mil e dezessete são dez anos. Uma curva brusca, numa serra aí, um erro de cálculo e já era. Quase foram dois, mas foi só ela. O chassi da pajero quebrou de tão pesada que foi a coisa, entortou esse tantão assim. O paramédico disse que ela falou pra salvar meu pai primeiro. Ela não aguentou.

Dois mil e dezessete são dois anos. Não dá pra ter carro em São Paulo, vamos andar a pé, de bike, de metrô. Mas mudar pra longe de SP me fez voltar pro volante. Votei a guiar o que levou minha mãe e quase levou meu pai, há dez anos, em dois mil e sete. Comando o que matou meu pai e minha madrasta em dois mil e dezessete.

Já capotei um carro dormindo enquanto dirigia. Bati numa cerca, depois num muro, capotei e acabei de ponta cabeça dentro de um riacho. Se o cinto tivesse travado, eu teria morrido. Consegui sair. Ufa. Meu pai vivia dizendo que era pra ele ter morrido quando ele dormiu ao volante e quebrou a cabeça, na juventude.

Minha mãe dirigia muito bem. Eu deveria ter uns 10 anos quando fui atropelado, de bicicleta. Ligaram para ela quando a ambulância chegou. Minha mãe levou menos tempo de Suzano até Ermelino Matarazzo do que a ambulância levou da minha rua ao hospital — no mesmo bairro. Tomou várias multas nesse dia.

Um dos motivos do término de um de meus namoros foi ter que pegar três horas de trânsito da minha casa até a casa dela toda sexta-feira.

Quando meu pai estava se recuperando do acidente que matou minha mãe, ele não podia dirigir. Mesmo assim, insistia em tentar. Ambas as pernas quebradas, com titânio, joelho reconstruído e tudo mais. Chorou quando conseguiu voltar a conduzir.

A morte de minha mãe, em um acidente de carro com meu pai no volante, não foi culpa dele. Foi um outro carro que o fechou, uma história assim. Eu não sei e nem quero saber. A morte de meu pai (e de minha madrasta) após uma colisão entre a motocicleta que ele conduzia e um carro não foi culpa dele. Tudo indica que houve alguma falha, alguma coisa estranha que fez com que a moto perdesse o controle. Não sei e nem quero saber.

Meu irmão faz piadas. “Depois dessa todo mundo já sabe como eu vou morrer”, diz ele, rindo, enquanto dirige mais rápido que deveria. Ele confia demais na própria direção.

Eu quero distância dos carros. Só dirijo por necessidade. Não gosto de corridas, não acho glamuroso, não penso em luxo. Vida perfeita é aquela em que eu não precise mais depender de um carro, no máximo um uber na madrugada.

“Ah mas isso é papo de hipster que mora no centro e anda de bike”. É mesmo. É papo de hipster que mora no centro, anda de bike, e teve duas mortes em família num acidente de trânsito no ano de aniversário de 10 anos de outra morte em família num acidente de trânsito. Esse foi dois mil e dezessete.

Susi Trama Ferneda, minha mãe, deixou três filhos. Andreia Zaidan, minha madrasta, deixou três filhos. Jaime Dias deixou saudade.